ARTIGO 47

10 sinais de que a empresa não valoriza SSMA

Não, definitivamente não quero comentar ou julgar a atuação dos colegas de SSMA, mas sim analisar, com base na minha experiência, 10 sinais que demonstram que a alta administração não valoriza a área de SSMA. Isso independe dos profissionais, mas sim da cultura dos profissionais que comandam as empresas.

Essa análise deve ser feita antes de aceitar uma recolocação, transição ou mesmo uma proposta de emprego, com o objetivo de você saber exatamente onde está pisando e os desafios que enfrentará.

Os sinais abaixo são evidências claras das dificuldades que o profissional de SSMA enfrentará na empresa. A partir dessa visão objetiva, poderemos tomar a decisão de forma livre e responsável sobre nosso futuro profissional.

1.PRODUÇÃO ACIMA DE SEGURANÇA

Em uma empresa onde a produção é tratada como prioridade, segurança, saúde e meio ambiente viram coadjuvantes e transparece uma visão curta por parte da gestão. Não é só uma escolha operacional, mas uma distorção cultural que coloca o ganho imediato acima da sustentabilidade humana e do negócio.

Nessa dinâmica, está a destruição da gestão proativa de riscos, que é trocada por metas de produção. Da mesma forma, gerentes sob pressão de resultados trimestrais adotam uma mentalidade reativa: manutenções preventivas são adiadas para não parar as máquinas, treinamentos são postergados e protocolos de proteção são flexibilizados em nome da eficiência. Aqui, as legislações de saúde, segurança e meio ambiente deixam de ser ferramentas de prevenção para virar burocracia. Essa priorização cria uma cultura tóxica, ignorando o custo total de propriedade — que vai além dos gastos diretos e inclui perdas indiretas, como paradas inesperadas, interrupções nos negócios, multas e o risco de danos à imagem da empresa.

Entendo que a produção é importante e que as empresas produzem e vendem, mas o limite dessa importância é operar fora da conformidade legal. A partir desse ponto, a empresa (alta administração) não pode aceitar tal condição.

Impacto para o Profissional de SSMA

O impacto disso para o profissional de SSMA é a perda da função técnica em favor da gestão de crises. Quando a produção atropela a segurança, o profissional deixa de gerenciar riscos e passa a gerenciar a conflitos éticos e legais.

2.SSMA NÃO PARTICIPA DO PLANEJAMENTO

A exclusão da área de SSMA do planejamento financeiro anual geralmente ocorre devido a uma visão gerencial limitada, que prioriza resultados imediatos em detrimento da sustentabilidade e da prevenção de riscos.

As principais razões que levam a essa barreira incluem:

  • Visão de centro de custos: a alta gestão muitas vezes vê o SSMA apenas como uma despesa obrigatória (multas, EPIs) e não como um investimento que gera rentabilidade a longo prazo, por meio da redução de acidentes e interrupções na produção.
  • Priorização de resultados de curto prazo: empresas com foco excessivo no faturamento imediato podem ignorar o planejamento de SSMA para cortar gastos rápidos, subestimando riscos legais e operacionais que podem surgir no futuro.
  • Baixa maturidade da cultura organizacional: em organizações onde a segurança não faz parte do DNA, o setor é visto como um bloqueador de processos, sendo consultado apenas para cumprir normas trabalhistas básicas, em vez de participar da estratégia.
  • Dificuldade na mensuração de dados: a área de SSMA gera um grande volume de informações, mas, se não houver ferramentas para trabalhar esses dados de forma preditiva, eles perdem relevância no planejamento financeiro.

Nesse caso, a área de SSMA é lembrada apenas quando ocorre um acidente.

Impacto para o Profissional de SSMA

O impacto desse cenário é a marginalização estratégica do profissional de SSMA. Quando a área é excluída do planejamento, ela deixa de ser uma função de gestão e passa a ser uma função de apagador de incêndios.

3.LIDERANÇA QUE NÃO DÁ O EXEMPLO

Você já viu diretores passeando pela operação sem capacete ou óculos, ignorando as regras que eles mesmos assinaram? Esse é o terceiro sinal alarmante de desvalorização, e afirmo que isso destrói a credibilidade do SSMA na raiz. É uma falha de liderança que mina a cultura de conformidade.

O cerne está na hipocrisia comportamental, quando executivos tratam normas como “para os outros”. Visitas operacionais viram demonstrações de privilégio, sem uso de EPIs ou adesão a procedimentos, violando o princípio de zero tolerância hierárquica. Isso reforça silos culturais, onde regras viram formalidades para fiscalização, não padrões vividos, contrariando os pilares de uma cultura de segurança.

O SSMA é corroído de dentro para fora e, operacionalmente, os riscos são normalizados por contágio comportamental. Culturalmente, as equipes são desmoralizadas e o SSMA é visto como ineficaz, gerando cinismo e baixa adesão. As auditorias e certificações ficam comprometidas, abrindo portas para passivos, e o profissional de SSMA parece lutar contraventos contrários, perdendo autoridade e oportunidades de liderança.

Está instalada na empresa a política do “Faça o que eu falo e não faça o que eu faço”. Isso definitivamente não funciona.

Impacto para o Profissional de SSMA

O impacto desse cenário para o profissional de SSMA é, na prática, um esvaziamento de função. Quando a liderança ignora as regras, o técnico ou engenheiro deixa de ser um gestor de riscos para se tornar um “fiscal de crachá” sem autoridade real.

4.FALTA DE AUTORIDADE PARA O PROFISSIONAL DE SSMA

A base deste sinal está no julgamento técnico, onde este é atropelado por pressões gerenciais de produção ou prazos. Alertas sobre falhas na hierarquia de controles ou violações de legislação são descartados, priorizando a continuidade operacional. Isso cria uma cultura de negação, onde o SSMA perde o poder de interrupção, contrariando princípios como o previsto na própria NR 3 – Embargo e Interdição.

Dentro da empresa, toda autoridade parte da alta administração. Assim, se esta não permite um embargo ou interdição, como será a correção de um colaborador que não utiliza corretamente o EPI?

Tenha consciência de onde está pisando para não reclamar depois.

Impacto para o Profissional de SSMA

O impacto disso para o profissional de SSMA é a anulação de sua função estratégica, transformando-o em uma figura meramente figurativa e legalmente vulnerável.

5.EQUIPAMENTOS E CONTRATOS DE BAIXA QUALIDADE

Não, não é somente sobre a compra de EPIs, mas listo aqui contratos de prestação de serviços, compras de máquinas e equipamentos, peças de reposição, insumos e todas as demais aquisições que a empresa venha a fazer. A empresa que não preza pela qualidade também não preza pela segurança, e vice-versa.

Alguns motivos que levam empresas a optarem por esse tipo de cultura são:

  • Foco no orçamento de curto prazo: o produto mais barato ajuda a fechar a conta no mês, mesmo que quebre em seis meses.
  • Falta de visão do custo total de propriedade: muitas empresas olham apenas o preço de aquisição e ignoram os custos ocultos, como manutenção frequente, trocas prematuras, baixa produtividade e paradas.
  • Processos de compras engessados: as compras têm autonomia excessiva e priorizam o “menor preço” sem considerar as especificações técnicas detalhadas pela área operacional.

Impacto para o Profissional de SSMA

O profissional de SSMA assume uma perigosa responsabilidade jurídica e operacional, tornando-se o principal culpado por acidentes ou interdições (NR 3) causados por falhas de materiais baratos. Essa prática sobrecarrega a rotina com a gestão de crises e manutenções constantes, destruindo a autoridade técnica do setor perante a operação.

6.SALÁRIO ABAIXO DO MERCADO

Toda empresa possui uma área de Recursos Humanos devidamente orientada para compor as metas salariais, com ferramentas e métodos que podem ser o Método de Avaliação de Cargos, Pesquisa Salarial, Estruturação de Tabela Salarial ou Estratégia de Remuneração (variável ou por competência).

Todas elas são válidas e aceitas, porém nada justifica o fato de:

  • Pagar salários abaixo do piso da categoria.
  • Criar cargos para burlar os pisos, tais como Analista, Head, Especialista, Líder, Gestor de SGI, Auditor de Wellness, Analista de Dados de SSMA, entre tantos outros.

Impacto para o Profissional de SSMA

O impacto de um salário abaixo do mercado é a crescente perda da autoridade do profissional de SSMA. No mundo corporativo, infelizmente, o salário costuma ser lido como um termômetro de importância transmitida pela alta gestão.

7.ACÚMULO DE FUNÇÕES

A utilização do profissional de SSMA em múltiplas funções (o famoso desvio ou acúmulo de função) ocorre geralmente por uma combinação de falta de visão estratégica e/ou pressão por redução de custos.

Os motivos principais são:

  • Visão de custo fixo: como a gestão muitas vezes vê o SSMA apenas como uma despesa obrigatória (centro de custos), ela tenta extrair o máximo de produtividade desse salário. Se o técnico só cuida de segurança, a empresa acha que ele tem tempo ocioso e o sobrecarrega com RH, portaria ou serviços gerais.
  • Baixa maturidade da cultura de segurança: quando a empresa prioriza a produção acima da segurança, ela não entende que a gestão de riscos exige tempo, análise e presença de campo. Para essa gestão, o SSMA é burocracia, então o profissional pode aproveitar o tempo fazendo outras coisas.
  • Invisibilidade do trabalho preventivo: como o trabalho de prevenção é silencioso (o sucesso é o acidente que não aconteceu), assim não se vê a entrega física constante como na linha de produção.
  • Estrutura enxuta e mal aplicada: muitas empresas tentam aplicar conceitos de eficiência eliminando o que chamam de funções de apoio. O SSMA acaba absorvendo tarefas de qualidade, patrimonial e administrativo para evitar novas contratações.

Impacto para o Profissional de SSMA

O impacto do acúmulo de funções na imagem do profissional de SSMA é a perda da identidade técnica. Quando você faz de tudo um pouco, a empresa deixa de te enxergar como um especialista em preservação de vidas e passa a te ver como um quebra-galho de luxo.

8.ESTRUTURA DE TRABALHO PRECÁRIA

Imagine um engenheiro tendo que fazer medições precisas sem dosímetro calibrado, rodar unidades sem carro, ou depender de carona para fazer uma inspeção em campo, ter relatórios travados em um notebook precário, sala sem ar-condicionado, com móveis velhos, Wi-Fi precário, escritório longe das áreas operacionais… Esses são sinais gritantes de desvalorização que ignora o investimento em infraestrutura essencial, sabotando a entrega de resultados confiáveis.

A penúria de recursos operacionais começa em orçamentos apertados que negam ferramentas básicas em detrimento da necessidade de resultados financeiros. Estou certo de que isso tem sentido e devemos todos apertar o cinto e contribuir com o resultado financeiro, mas, por outro lado, eu pergunto: “Para que contratar um profissional e não lhe oferecer as condições mínimas de trabalho?”.

O mínimo de dignidade deve ser fornecido a todo colaborador, e para o SSMA não pode ser diferente.

Impacto para o Profissional de SSMA

O impacto desse cenário é a sabotagem da eficácia técnica e a humilhação funcional do profissional de SSMA. Quando a empresa nega as ferramentas básicas, ela está, na prática, dizendo que os resultados que você entrega não têm valor real para o negócio.

9.SUBORDINAÇÃO A QUEM VOCÊ DEVERIA FISCALIZAR

No universo corporativo de SSMA, poucos dilemas expõem com tanta clareza a desvalorização crônica dessa área essencial quanto a subordinação do fiscalizador ao fiscalizado. Imagine o engenheiro ou técnico de segurança reportando diretamente ao gerente de produção — o mesmo que gera os riscos diários sob normas como NR-1, NR-5 e NR-12. Essa estrutura não é acidente, é sintoma da falta de visão estratégica, onde o SSMA vira departamento de apoio, refém de KPIs operacionais que priorizam volume sobre vidas.

Um profissional nesse ambiente vive um conflito em que sua voz técnica é sempre abafada. Isso viola a independência funcional, minando a imparcialidade essencial.

Impacto para o Profissional de SSMA

O impacto desse cenário é o conflito de interesses institucionalizado. Quando o profissional de SSMA responde a quem ele deveria fiscalizar, sua função deixa de ser de controle e passa a ser de concessão.

10.DISPONIBILIDADE 24/7 SEM COMPENSAÇÃO

Exigir disponibilidade 24/7 sem compensação adequada é mais do que uma prática operacional, é um sinal alarmante de desvalorização estratégica dessa função vital. Engenheiros, técnicos e coordenadores de SSMA frequentemente atuam em plantões ininterruptos, respondendo a emergências noturnas, fins de semana e feriados, com ou sem banco de horas, adicional noturno ou folgas compensatórias. Essa cultura transforma profissionais em máquinas sempre ligadas, ignorando o custo humano e reforçando que o SSMA é um serviço essencial descartável.

Em essência, essa disponibilidade sem contrapartida não é dedicação heroica, é exploração velada que sabota carreiras. O SSMA merece estruturas que protejam quem protege todos.

Impacto para o Profissional de SSMA

O impacto dessa disponibilidade 24/7 sem compensação na imagem do profissional é a sua transformação em um recurso utilitário em vez de um gestor estratégico. Quando você está disponível o tempo todo de graça, a empresa para de respeitar o seu tempo técnico e passa a consumir o seu tempo pessoal como se fosse uma propriedade.

TRANSFORMANDO SINAIS DE ALERTA EM OPORTUNIDADES ESTRATÉGICAS

Reconhecer os sinais de desvalorização da área de Saúde, Segurança e Meio Ambiente é fundamental para profissionais que buscam ambientes de trabalho maduros e éticos.

Compreender esses indicativos permite a tomada de decisões conscientes sobre a carreira, identificando culturas que priorizam a produção em detrimento da vida. Embora nem todas as empresas sejam ideais, a resiliência e a adaptabilidade são peças-chave para que o profissional desenvolva competências de influência, revertendo cenários reativos em proativos.

O objetivo é atuar como um verdadeiro gestor de riscos, integrando o SSMA ao planejamento estratégico e transformando a segurança em valor para o negócio.