ARTIGO 56

O mercado mudou. A régua que mede o seu salário também mudou!

Tem uma frase que circula no mercado e que eu quero desmontar com você hoje: “quem conhece IA vai ganhar mais”. Ela está incompleta. E é exatamente a parte que falta que separa quem cresce de quem estagna.

A PwC dividiu o mercado de trabalho em dois trilhos:

  • De um lado, as funções “profissionalizadas”pela IA, são aquelas em que a tecnologia multiplica a capacidade do especialista e exige mais julgamento humano.
  • Do outro, as funções “democratizadas”,são as que a IA torna acessíveis a qualquer um.

Desde 2021, os salários do primeiro trilho sobem 42% mais rápido que os do segundo. E as vagas crescem no dobro da velocidade.

Agora junte isso com o que está acontecendo no Brasil: a contratação de profissionais com competências em IA quase triplicou entre 2024 e 2025. A fatia dessas vagas saltou de 1,1% para 3,6% do mercado o que representa quase 119 mil novas oportunidades abertas em um único ano.

O que isso significa para você, profissional de SSMA?

Que a régua que mede o seu valor no mercado acabou de ser trocada. E ninguém enviou um comunicado avisando.

1.A lógica invisível: por que o salário não segue a formação

Aqui está a regra não escrita que poucos falam em voz alta: o mercado não paga pelo que você sabe. Paga pelo que você consegue resolver.

Eu passei mais de 25 anos como gerente de SSMA em multinacionais. E nesse tempo, eu mesmo promovi engenheiro com formação mais simples, mas que sabia traduzir problema em resultado, e ele subia levando o salário junto. E eu mesmo tive que demitir engenheiro brilhante, com pós-graduação impecável, que estava estagnado há anos no mesmo cargo. Não foi injustiça. Foi lógica de mercado.

A IA torna essa lógica mais dura ou mais favorável, conforme a forma como você se posiciona. Isso porque ela exige uma nova maneira de pensar e agir. Não basta aprender a usar uma ferramenta: é preciso desenvolver uma nova competência comportamental, identificar onde a tecnologia pode resolver problemas, fazer as perguntas certas e transformar as respostas em decisões.

Na prática, isso significa que o profissional de SSMA que usa IA para analisar a causa raiz de um incidente em minutos, em vez de passar uma tarde montando o relatório, não está apenas economizando tempo. Está mudando a régua que o mercado usa para medi-lo.

Salário não segue formação. Segue a capacidade de resolver. E a IA multiplicou o valor de quem resolve.

2.A consequência: o que isso faz com a sua autoridade técnica

Agora vem a parte que ninguém gosta de encarar.

A IA dobra de tamanho a cada sete meses. Isso não é exagero de palco, é o ritmo real de evolução da tecnologia. E tem uma consequência direta para você: quem não acompanha, perde autoridade sem perceber.

Já falei aqui sobre o déficit de autoridade causado pela remuneração que acontece quando o mercado paga menos do que a responsabilidade exige, o profissional passa a questionar o próprio valor. Agora, a IA cria uma versão nova e silenciosa desse fenômeno, que chamo de déficit de autoridade tecnológica.

Funciona assim: o profissional técnico, com décadas de experiência em segurança, chega na reunião de diretoria e ouve o diretor de operações dizer que a IA já está prevendo falhas de manutenção na planta. Naquele momento, a autoridade dele não caiu por falta de conhecimento técnico. Caiu porque o vocabulário da conversa mudou e ele não estava na sala quando isso aconteceu.

Eu já entrei em fábricas onde o profissional de SSMA era o mais respeitado do chão de fábrica, mas sumia na sala de reunião. Hoje essa distância está sendo ampliada pela IA. Não porque a tecnologia substitui o seu julgamento, mas porque quem domina a conversa, domina a decisão. E a decisão, hoje, está sendo tomada com IA.

Autoridade não é só o que você sabe. É o quanto você participa da conversa que decide o seu futuro.

3.O que separa quem cresce de quem estagna

Há uma verdade que eu repito há anos e que a IA tornou ainda mais urgente: competência que não vira evidência não vira oportunidade.

Eu chamo isso de SSMA invisível, o profissional que entrega prevenção todos os dias, mas cuja entrega nunca se transforma em percepção de valor para o mercado. Ele salva vidas, evita acidentes, protege a empresa. E continua invisível.

A IA está mudando esse jogo de três formas concretas:

  • Evidência

O relatório de incidente que levava um dia agora sai em minutos, com análise de causa raiz, indicadores e recomendações. O profissional que domina isso não entrega mais papel: entrega decisão. E decisão é evidência de valor.

  • Narrativa

A IA não é matéria de escola, é infraestrutura. Como a eletricidade. Você não estuda eletricidade para usar a luz, você usa. Quem entende isso consegue contar a própria história de um jeito que o mercado entende: não “eu sei usar IA”, mas “eu resolvo problemas de segurança mais rápido e melhor do que antes”.

  • Posicionamento

Aqui está o ponto que mais me preocupa no dia a dia com profissionais de SSMA: a dificuldade número um da carreira raramente é técnica. É não ser visto. O problema não é ser bom. É ser visto.

Não é o melhor profissional que cresce. É o mais visível. E a IA é a ferramenta de visibilidade mais poderosa que já existiu para o SSMA.

4.A decisão que muda o jogo

Chegamos aqui. E agora preciso ser honesto com você, do jeito que eu sempre sou.

A maioria dos profissionais de SSMA que eu encontro já usa IA para relatórios e documentação. E isso é ótimo é o primeiro passo. Mas é usar a tecnologia em 10% do potencial dela.

O profissional que quer crescer não está perguntando “como uso IA para escrever mais rápido”. Está perguntando “como uso IA para decidir melhor, liderar melhor e ser visto melhor“.

Não importa conhecer a IA. O que realmente importa é aplicar.

E aqui está a decisão que muda o jogo não é sobre ter mais um diploma, não é sobre aprender uma ferramenta. É sobre escolher qual profissional você quer ser daqui para frente: o que usa a tecnologia para fazer o mesmo de sempre, ou o que usa a tecnologia para se tornar referência.

Eu sei qual lado paga 62% a mais. O dado da PwC já respondeu por mim.

A frase que abre esta edição… agora relida para você

Volta comigo ao número do começo.

Profissionais com habilidades em IA recebem, em média, 62% a mais do que colegas em cargos semelhantes que não dominam a tecnologia.

Quando li esse estudo, pensei em cada profissional de SSMA que conheço e em você, que está lendo esta edição. Porque a pergunta que fica não é “a IA vai me substituir?”. É outra, muito mais pessoal:

Se o mercado já está pagando 62% a mais para quem aplica IA na própria área, o que está te impedindo de ser esse profissional?

A resposta não está na tecnologia. Está na decisão que só você pode tomar.

ARTIGO 55

O líder de SSMA que o mercado contrata

Existe um perfil de líder de SSMA que o mercado contrata, e ele não é, necessariamente, o profissional mais completo tecnicamente.

É o profissional que transmite segurança, o que reduz a incerteza de quem decide, o que faz a diretoria dormir tranquila, o que inspira confiança antes mesmo de abrir a boca. O mercado contrata essa sensação, ela tem nome, tem método e pode ser construída.

Mas quase ninguém é preparado para isso. Vamos entender o que isso significa na prática, o mercado não contrata pelo cargo que você deseja, mas contrata pelo problema que você resolve. E saber qual é o seu e fazer isso ser percebido, talvez seja o elo que faltava na sua trajetória.

1. O mercado não paga por evolução. Paga por previsibilidade.

Existe uma crença confortável de que, se você se desenvolver o suficiente, o reconhecimento vem sozinho. Que a promoção é uma consequência natural do crescimento.

Não é! E essa é a primeira verdade que precisamos encarar, empresa não promove quem evolui. Empresa promove quem reduz incerteza.

Quando uma diretoria decide quem sobe, ela não pergunta “quem mais evoluiu?”. Ela pergunta, ainda que sem dizer em voz alta: “quem me tira menos sono? Quem entrega previsibilidade? Quem eu confio para decidir no meu lugar?”

Evolução é um investimento em você. Previsibilidade é um investimento no negócio.

O mercado paga pelo segundo, e só reconhece o primeiro quando ele se transforma no segundo.

2. O que o mercado realmente espera de um líder de SSMA

Quando uma empresa contrata ou promove um líder de SSMA, ela não está procurando alguém que “saiba segurança”. Ela procura alguém que resolva três problemas que o técnico, por formação, não resolve:

1. Previsibilidade

O líder mostra onde está o risco, o que está piorando, o que é crítico e o que está sendo tratado, em linguagem que a diretoria entende. O técnico reporta o passado, o líder antecipa o futuro.

2. Influência

O líder não impõe, convence. Constrói autoridade pela consistência e pelo propósito, não pelo medo. Sabe falar a língua do operador, do gerente de produção e do conselho administrativo. O técnico aponta o erro, o líder constrói a solução.

3. Continuidade do negócio

O líder conecta SSMA ao resultado. Traduz risco em custo de interdição, em passivo, em reputação. Deixa de ser “centro de custo” e vira “proteção do lucro”. O técnico vê a regra, o líder vê o que a regra protege.

Essas três competências não estão no currículo técnico. Não se aprendem em curso de NR. E é exatamente aí que a maioria dos engenheiros trava, não por falta de evolução, mas por evoluir na camada errada.

3. A régua de quem promove é diferente da régua de quem estuda

Aqui está o ponto que quase ninguém diz, quem decide sua promoção não avalia você pela mesma régua que você usa para se avaliar.

Você se avalia pelo que sabe. O mercado avalia pelo que você entrega e pelo que você aparenta entregar. E isso tem um nome que incomoda: posicionamento.

Você pode ser o engenheiro mais preparado da planta. Se a sua entrega não é percebida, se ninguém associa o seu nome a resultado, a decisão, a liderança, você continua sendo “o técnico muito bom”. E “técnico muito bom” não é o perfil que sobe. É o perfil que permanece.

Não é injustiça. É como o jogo funciona. E quem entende isso deixa de esperar reconhecimento e passa a construí-lo. E vale lembrar, empresas contratam por técnica e demitem, ou deixam de promover, por comportamento. A régua de quem decide é comportamental. Por isso, muitas vezes, quem fica para trás não é o menos preparado, mas é o que não percebeu que o jogo é outro.

4. O que o cargo cobra e que o crachá não mostra

Quando você finalmente assume a liderança, descobre que o cargo cobra o que o crachá não mostra:

  • A solidão: você sai do grupo dos pares e não volta mais. As decisões difíceis passam a ser suas e só suas.
  • A pressão da cúpula: você vai agradar uma parte da diretoria e incomodar outra. Liderança madura não busca unanimidade, busca clareza.
  • A responsabilidade legal: o líder de SSMA responde pela segurança, pelo meio ambiente e pela saúde. Assina com o próprio nome e com as consequências que podem vir dele.
  • As sombras do mercado: em algum momento, você vai se deparar com quem frauda, quem maquia relatório, quem omite para não ser pego na fiscalização. E a decisão de não fechar os olhos é o que separa o líder do burocrata.

Não estou te assustando. Estou te preparando, porque ninguém prepara. E é exatamente isso que separa quem sobrevive ao cargo de quem floresce nele.

O outro lado: o que a liderança devolve a quem encontra o porquê

Agora, o lado que quase ninguém mostra, que é o verdadeiro motivo para querer liderar.

5. Liderança é serviço: a chance de mudar a vida de alguém

O líder de verdade enxerga o cargo como uma oportunidade de desenvolver pessoas. E desenvolver, aqui, é profundo, quando um colaborador recebe um aumento, ele pode mudar de classe social. A família ganha acesso à educação, a uma casa melhor, a dignidade. Você vê a vida real de alguém mudar porque apostou nela.

Isso não se mede em KPI. Isso se sente!

6. Liderança transforma caos em excelência

Muitos líderes chegam em unidades sem departamento estruturado, sem cumprir sequer a legislação básica. E, ao longo dos anos, veem tudo se organizar. O momento mais gratificante? Quando aquela unidade, que um dia não cumpria nada, alcança nota máxima em certificações e auditorias. Ver o caos virar excelência e saber que você liderou isso, é uma realização que nenhum salário paga.

7. O porquê que sustenta tudo

Agora, a pergunta que poucos se fazem no momento certo, e quando a promoção demora, quando o mercado não responde, quando a pressão aperta, o que sustenta você?

Não é o salário. Não é o cargo. Não é o reconhecimento. Tudo isso é instável, chega e pode ir embora. O que sustenta é o sentido.

Viktor Frankl, o criador da Logoterapia — a escola que estuda o sentido da vida —, repetia uma frase que atravessou os campos de concentração e chegou até nós: “quem tem um porquê para viver suporta quase qualquer como.” E eu acredito que isso vale, em escala menor, para a liderança em SSMA

“O líder que encontra o porquê de liderar suporta o como: a solidão, a pressão, a responsabilidade, a espera”

O porquê do líder de SSMA é claro para quem enxerga, proteger pessoas, desenvolver gente, construir algo que permanece. Quando um colaborador volta inteiro para casa, e isso acontece porque você liderou a cultura que protegeu ele, isso é sentido. Quando alguém cresce na carreira porque você apostou nele, isso é sentido. Quando uma unidade que não cumpria nada alcança excelência auditável, isso é sentido.

Sem esse porquê, a liderança vira peso. Com ele, vira propósito. E propósito é o único combustível que não acaba.

Eu passei mais de 25 anos liderando equipes em SSMA, e posso te dizer com segurança:

“Quem lidera só por cargo se quebra. Quem lidera por propósito, floresce.”

A diferença não está no currículo, está na alma de quem decide liderar.